Jean Wyllys | Quando a Igreja e a família se omitem, o dever passa a ser do Estado

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018


Acredito não ser necessário, a esta altura dos acontecimentos, falar sobre quem é a pastora Damares Alves ou sobre a forma como sistematicamente ataca com mentiras a comunidade LGBT e os povos indígenas. Após inúmeros memes e piadas envolvendo uma pregação registrada em um vídeo descontextualizado, a pastora revelou, em entrevista ao Universa, do UOL, ter sido estuprada quando criança por cerca de dois anos, sobre o fato de seus pais saberem das violências sofridas, sobre como foram convencidos pela igreja a não tomar qualquer atitude, e sobre como a escola poderia tê-la tirado deste ciclo de abusos, mas não o fez.

Sem dúvidas, requer coragem reviver traumas profundos e lutar para que outras crianças possam não ser submetidas às mesmas violências. Algumas destas violências impostas covardemente às crianças eu também vivi: agressões físicas, bullying homofóbico e discriminação por ser um menino que não correspondia ao estereótipo viril. E é esta noção de que nenhuma destas violências deveria ser imposta de forma alguma que me motiva a lutar pela mudança. Luto porque acredito que a defesa da criança e do adolescente em sofrimento psíquico não pode depender da mera boa vontade de quem a cerca.

Acredito que Damares, do alto de sua vivência, também lute para que nenhuma outra criança sofra. Deveríamos estar, portanto, militando do mesmo lado, apesar das diferenças ideológicas que nos separam, o que é absolutamente normal. Ainda assim, sou alvo preferencial das mentiras da pastora e de seus correligionários, que insistem em falsamente me associar à defesa da sexualização precoce de crianças e da pedofilia como meio de desmoralização de toda uma luta e de toda uma história.

Deveríamos lutar juntos por uma rede de proteção aos mais vulneráveis, que se baseie na educação, na prevenção e na promoção de sua cidadania. Mas é justamente Damares quem se coloca à frente das campanhas de difamação de programas de educação sexual, instrumentos que permitam às crianças e adolescentes identificarem situações de abuso. Segundo Damares, os pais devem decidir se seus filhos e filhas receberão tal educação.

E talvez este seja o ponto mais controverso de sua entrevista. Se seus pais sabiam dos abusos e preferiram não fazer nada, e se são justamente os parentes mais próximos os responsáveis por cerca de 65% dos casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes, a quem Damares pretende proteger como ministra do próximo governo?

Sim, Damares, é dever da escola munir cada aluno das ferramentas que lhe permita prevenir o abuso e a violência, queiram os pais ou não, porque às vezes eles não querem. Se a família falha por vontade ou por desconhecimento, e se as igrejas podem infelizmente acabar se transformando em ambientes em que abusos são acobertados, é justamente a escola a última barreira, aquela que não pode em hipótese alguma falhar. A escola também não pode falhar ao permitir a violência contra alunos e alunas “fora do padrão”. Mas são esses e essas que por fim abandonam as escolas onde sofrem com o bullying homofóbico e acabam vítimas do tráfico humano e da exploração sexual porque a bancada evangélica, da qual você foi consultora jurídica, volta todas as suas armas contra qualquer iniciativa de inclusão. Essas pessoas estão sendo silenciadas em seu sofrimento, assim como você, por influencia direta de algumas igrejas e líderes religiosos que querem subverter a função do Estado e sua laicidade. Como você disse que era a hora de fazer naquele mesmo vídeo que circulou nas redes sociais. Lembra?

Da mesma forma como os seus pais acabaram acobertando os muitos estupros sofridos por você, outros pais também podem perpetrar outras violências sem sequer perceber, ainda que muito graves. E é aqui que eu falo de algo que é tema recorrente das suas mentiras: o projeto de lei de minha autoria que trata do direito à identidade de gênero, e que pode garantir, respeitado o devido processo legal, o direito de menores de idade a tratamentos de bloqueio hormonal a fim de impedir que o desenvolvimento de certas características corporais ligadas ao desenvolvimento sexual agravem profundos sofrimentos emocionais. Dizer que se trata de permitir que crianças “troquem de sexo” sem a autorização dos pais é apenas mais uma violência cometida contra elas. É negar sua humanidade e lhes impor o silêncio.

Minha militância é sobretudo empática. É esta empatia que me impede de aceitar que se ofereça dinheiro a uma mulher vítima de estupro para dissuadi-la de exercer o direito lícito de abortar de uma gravidez jamais desejada, impondo mais uma “culpa”. Não sou mulher, nunca fui vítima de violência sexual, mas isto também dói em mim e me tira a paz. Que nossas histórias sejam o combustível da mudança, não do conformismo. Apesar da difamação diária, eu não vou aceitar que outras Damares tenham que subir em goiabeiras para dar fim às próprias vidas e ao próprio sofrimento. Nem que outras crianças decidam tirar suas vidas porque seu corpo se desenvolve de forma diferente da forma como elas se entendem. Nem porque são vítimas da discriminação, ou porque são jogadas para fora de seus lares desde muito cedo.
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