Ato presta apoio a mulher trans vítima de agressões em festa na UFPE

terça-feira, 27 de março de 2018



Dezenas de pessoas participaram, na tarde desta segunda-feira (26), de um ato em apoio à estudante Dália Celeste Hortence da Costa, de 28 anos, vítima de ataque transfóbico durante uma festa na última sexta-feira (23). Dália sofreu agressões verbais e, após denunciar o fato no microfone da festa, foi apedrejada e agredida sexualmente na parada de ônibus próxima ao Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mesmo local onde houve a festa onde ela foi agredida. 

A jovem é aluna do pré-vestibular solidário da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e estava na festa de encerramento da Semana LGBT da UFPE. Lá, sofreu agressões verbais e pediu para denunciar a situação no microfone. "O indivíduo se retirou do evento”, lembrou a estudante.  No sábado (24), Dália registrou um Boletim de Ocorrência (B.O.) na Central de Plantões da Polícia Civil em Campo Grande, na Zona Norte do Recife, e foi submetida a um exame de corpo delito. Desde a postagem nas redes sociais denunciando o caso, Dália conta que vem sofrendo agressões online que estão sendo anexadas à sua denúncia de agressão. Ela foi informada que a Delegacia da Várzea vai assumir as investigações. 

UFPE E OAB
Por meio das redes sociais, a UFPE informou que o caso foi relatado por sua Diretoria LGBT e está sendo acompanhado pela Superintendência de Segurança Institucional (SSI), que comunicou à Secretaria de Defesa Civil do Estado. "Não descansaremos enquanto não for resolvido", diz a titular da Diretoria LGBT da UFPE, Luciana Vieira, em nota veiculada no site da Universidade.

 "O fato se torna ainda mais grave por ter acontecido dentro de Instituição Universitária Pública, cujo ambiente acadêmico deve estar direcionado para a formação, com igualdade de oportunidades e o respeito à diversidade de seus indivíduos, em todos os aspectos humanos", afirma trecho da nota publicada nesta segunda no perfil oficial da Ordem dos Advogados do Brasil seccional Pernambuco (OAB-PE) no Facebook (confira abaixo as duas notas na íntegra).
"Dentro desse evento tiveram aulões sobre gênero e sexualidade. Eu não cheguei a acompanhar porque a maioria era à tarde, no horário da minha aula. Mas fui à festa, que foi um evento voltado ao público LGBT”, contou. Então ela foi, desacompanhada, pegar um ônibus na transversal à rua do Centro de Educação quando foi atingida por uma pedrada no olho. “Perdi logo a visão. Só consegui escutar ‘Quebra a cara dela!’. Foi quando consegui escapar, entrei no ônibus e fui correndo para casa”, relatou. 

Apesar de não ter conseguido identificar seus agressores, ela conseguiu perceber duas vozes distintas. “Quero relatar também que eles assediaram meu corpo enquanto me agrediam, tocando nas minhas partes íntimas”, acrescentou. "Eu sou a minoria. Eu tenho no sangue tudo que a sociedade repudia: sou trans, negra e pobre”, s

Em seu perfil em uma rede social, Dália publicou imagens do rosto machucado denunciando a violência. “Meu nome é Dália, sou uma mulher trans, negra e feminista. Antes de relatar minha história, eu quero mostrar a vocês o rosto que não é meu, quero mostrar o rosto que é da misoginia, o rosto da transfobia. O rosto de milhares de mulheres. Mostrar o rosto que antes de tudo denunciou, o único rosto que me fez ter vergonha de chegar em casa e olhar para minha mãe”.

Apoio
A estudante nunca esperava que o caso tivesse tamanha repercussão. “Enquanto nos falamos, tem uma mulher negra sendo assassinada, uma menina sendo estuprada, uma mulher perdendo o filho dentro da periferia; e eu sou a representação de todas essas pessoas”, salientou. 

OAB PERNAMBUCO·SEGUNDA, 26 DE MARÇO DE 2018

A Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB-PE vem expressar o seu veemente repúdio às agressões sofridas pela estudante universitária, Dália Celeste, de 24 anos, durante o evento Vestibular Solidário da UFPE, na última sexta-feira, 23. Dália, que é transexual, foi abordada por dois homens, com pedradas, murros e socos dentro do campus universitário. Em visível desrespeito à sua identidade de gênero, a estudante ainda teve o corpo apalpado pelos agressores. Das agressões, ficaram hematomas na face e no corpo. 

Os atos de ódio, tipicamente transfóbicos, também causaram violações nos seus direitos fundamentais de cidadã, direitos estes, de ir e vir e de ser quem é. Em um país que ostenta a vergonhosa liderança nas agressões e mortes de transgêneros no mundo, tendo sido classificado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos como o país mais homofóbico e transfóbico dos 35 países das Américas (relatório de 2015), a violência sofrida pela jovem Dália, precisa ser apurada e seus algozes devidamente punidos. 

O fato se torna ainda mais grave, por ter acontecido dentro de Instituição Universitária Pública, cujo ambiente acadêmico deve estar direcionado para a formação, com igualdade de oportunidades e o respeito à diversidade de seus indivíduos, em todos os aspectos humanos. 

Diante disto, a OAB Seccional Pernambuco, por meio da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero está atenta, se mantendo informada e acompanhando de perto o desenrolar deste caso, para que não seja mais um a engrossar as nossas tristes estatísticas. 

O momento é de reflexão para toda a sociedade e para isto, é importante que todas as instituições estejam engajadas nesse combate efetivo a casos de transfobia, como este. A construção de um futuro de paz, depende de um minucioso trabalho de educação para o respeito à identidade de gênero e à orientação sexual de cada um dos homens e mulheres que constroem nossa nação. O compromisso de estar junto nessa luta que é o que move esta Comissão. A luta por direitos iguais para todos os cidadãos, previstos na nossa Constituição Federal, é imprescindível e um dever de todos. 

Maria Goretti Soares Mendes
Advogada-Presidente da CDSG-OAB/PE

Confira nota da UFPE sobre o caso:

Diretoria LGBT UFPE

24 de março às 15:09 · 
A Diretoria LGBT da UFPE, órgão ligado ao Gabinete do Reitor e responsável pelo acolhimento, inserção e permanência dessa população no âmbito da universidade, vem por meio desta nota expressar nossa total indignação por mais um lamentável episódio de transfobia.

No dia 23 de março 2018 foi realizado, em frente ao Centro de Educação (CE), um evento de incentivo às manifestações artísticas e culturais promovidas pelas pessoas LGBTs da UFPE. Na ocasião, fomos procuradas por uma estudante do Vestibular Solidário, cursinho preparatório para o ENEM, que nos informou que havia sofrido discriminação e violência verbal/ simbólica por parte de um homem cisgênero ainda não identificado. De imediato, paramos as apresentações e repudiamos publicamente e enfaticamente as atitudes do agressor. Ratificamos que a Universidade Federal de Pernambuco, NÃO TOLERA qualquer tipo de discriminação e violência contra a população LGBT, em especial as pessoas trans e as travestis. Em seguida, a Cultural transcorreu tranquilamente sendo finalizada de igual maneira às 21:30.

Contudo, após o término do evento, a estudante foi fisicamente agredida quando voltava para casa, a caminho da parada de ônibus. Vivemos no país do mundo que mais mata travestis e mulheres trans, o dado é conhecido, mas quando a violência chega tão perto de nós é ainda mais estarrecedor. São tempos difíceis para ser quem a gente é diante de tanto ódio e intolerância.

Nesse sentido, faz-se necessário expressar nossa indignação e revolta diante dos fatos ocorridos. Informamos ainda que a estudante está sendo devidamente assistida e amparada pela nossa equipe. Todas as medidas administrativas já estão sendo tomadas no sentido de cooperar para possível identificação e punição do agressor nas instâncias cabíveis. Acontecimentos como o que estamos repudiando somente reforçam a importância do nosso trabalho e nos move na luta pela construção de uma sociedade democrática e inclusiva para todos e todas.

Não passarão!

Fonte;Folha de PE

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