Chuvas trazem alívio para economia do leite em Pernambuco, mas antigas ameaças seguem à espreita

domingo, 1 de outubro de 2017


“Estava um caos. A cadeia leiteira estava à beira da aniquilação”, recorda o produtor de leite Hugo Almeida, de Capoeiras, no Agreste Meridional. Mais de cinco anos sem chuvas provocaram danos profundos na principal economia rural da região. A estiagem secou os reservatórios, devastou as pastagens e tornou a água um privilégio para quem pudesse pagar. O gado – que chega a consumir 120 litros de água por dia quando as temperaturas sobem – morreu. A produção caiu pela metade.

“Houve um empobrecimento notório dos pecuaristas, que começaram a vender alguns animais para alimentar os que restaram”, narra a pesquisadora Daniela Carvalho, professora de administração rural da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) em Garanhuns, na mesma região. O processo, explica, resultou no abandono da atividade pelos pequenos produtores e no retorno do êxodo rural. Com menos renda disponível para as famílias, o comércio das cidades fraquejou. “A seca se somou à crise econômica e deixou todos em uma situação complicadíssima.”

As chuvas de junho trouxeram alívio, mas os efeitos da maior estiagem dos últimos 60 anos ainda são sentidos. Com as reservas de alimento esgotadas e sem capital para investir, os proprietários ainda precisam comprar sementes, plantar e esperar que o pasto cresça. Malnutrido, o rebanho diminui a produção. No Agreste Meridional, os níveis diários, que chegaram a 2,2 milhões de litros antes do período de escassez, caíram a 800 mil litros em 2016, e, mesmo com o retorno da oferta de água, estão atualmente em cerca de 1,2 milhão de litros por dia. As estimativas são do Movimento a Força do Leite, que reúne pecuaristas preocupados com o risco de colapso que a bacia leiteira vivenciou há até poucos meses.

Integrante do grupo, Hugo Almeida alerta que, apesar de mais confortável, a situação ainda inspira cuidados. “Pernambuco necessita de ações estruturantes para resistir às próximas crises hídricas. Os recursos precisam ser aplicados estrategicamente”, analisa.
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