Fila de espera para mudança de sexo em ambulatório no Nordeste chega a 13 anos

segunda-feira, 10 de abril de 2017



A agente de endemias Gyslaine Barbosa, de 28 anos, aguardou seis anos para conseguir ter o corpo que correspondia à identidade que ela carregava desde criança. Ela já era atendida no Hospital das Clínicas desde que a cirurgia era feita em uma linha de pesquisa científica. O serviço foi habilitado pelo Ministério da Saúde em outubro de 2014. Depois disso, Gyslaine ainda teve que esperar mais dois anos para cumprir as regras exigidas.

Moradora de Surubim, município localizado a 120 km da capital pernambucana, ela enfrentou uma rotina exaustiva para receber os atendimentos. “Meia-noite já tinha que pegar o ônibus para estar no hospital [de manhã]. E era duas vezes por mês. A gente não dormia, não comia. E, quando terminava a consulta ao meio-dia, ainda tinha que esperar o ônibus que passa às 17h recolhendo o pessoal. Quando eu chegava em Surubim já eram 20h, até chegar em casa era meia-noite.”

Ela conta que viveu como homem por muitos anos até que não aguentou mais esconder como se sentia. “Tive que crescer como um menino. Ninguém podia saber o que eu estava sentindo, o que eu era. Porque ninguém acreditava. Mas chegou um certo ponto que eu não aguentei mais. Eu tinha meu emprego, terminei meus estudos, era gerente de loja e cheguei no meu limite. Cheguei chorando na loja que minha irmã trabalhava. Eu desabafei: eu sou uma mulher, não sou esse corpo que eu sou. Só tenho dois caminhos: ou eu abro para todo mundo ou vou correr o risco de me matar.”

A bailarina clássica Eduarda Vitória Cassiano, de 38 anos, cujo nome artístico é Duda Mel, também fez parte do primeiro grupo atendido no ambulatório pernambucano. Sua história com a transexualidade começou aos 14 anos, em uma época em que se conhecia pouco sobre o tema. A cirurgia de redesignação, por exemplo, era proibida até 1997. A coragem de expor sua identidade de gênero veio da dança. “Eu cheguei e disse a minha professora que ia sair do balé porque eu queria mudar mais o meu corpo. Ela disse que não, que não ia me abandonar. Ela foi como minha mãe”, conta.

Duda trabalhou como professora auxiliar por 15 anos. Por muito tempo dançou como menino. Mesmo assim, enfrentou preconceito.
“Teve uma escola que não aceitou o fato de eu ser auxiliar. Minha professora disse ‘onde não couber você não me cabe’. A gente foi para outras escolas que me aceitaram. Aí vieram as mudanças no meu corpo, meu cabelo eu deixei crescer”, conta.

Depois de mais de 10 anos, ela passou a dançar como menina, usando a sapatilha de ponta – só usada por mulheres.

Duda Mel diz que a cirurgia mudou sua vida. Nas aulas, as crianças a chamam de tia. E em casa, onde o espelho era proibido, hoje só em seu quarto há cinco deles. Coisas simples como usar um biquíni já não são um problema. E coisas maiores, como estar em paz consigo mesma, foram possíveis. A cirurgia, segundo ela, foi muito além da estética.

“[Quando eu era pequena] Eu pensava: vou passar embaixo do arco-íris e vou sair mulher. Eu vou dormir agora chorando, com raiva, e quando acordar eu vou acordar mulher. O arco-íris nunca chegou, mas hoje eu consegui.”

Agência Brasil
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